sexta-feira, 14 de agosto de 2026

René Goscinny e a arte de escrever para quem vai desenhar

Há uma coisa que costumo perceber quando converso com alunos interessados em histórias em quadrinhos: muitos chegam à narrativa pela porta do desenho. Isso é absolutamente natural. Afinal, a primeira relação que temos com uma HQ costuma ser visual. Vemos um personagem, uma página, uma capa, uma expressão, uma cena de ação e imediatamente queremos reproduzir aquilo. O problema começa quando o desenhista percebe que consegue representar muito bem uma personagem, mas ainda não sabe exatamente o que fazer com ela dentro de uma história.

É nesse momento que estudar autores como René Goscinny se torna particularmente interessante. Goscinny nasceu em Paris em 14 de agosto de 1926 e construiu uma carreira que atravessou diferentes países, linguagens e parceiros criativos. Seu nome ficou definitivamente associado a Astérix, criado em parceria com Albert Uderzo, mas também está ligado a Lucky Luke, Iznogoud, Le Petit Nicolas e diversos outros trabalhos.

O que me interessa em Goscinny, entretanto, não é apenas a quantidade de personagens famosos que passaram por sua escrita. O que considero particularmente importante para quem está aprendendo é observar como ele pensava a história antes que ela se transformasse em uma sucessão de desenhos.

O personagem não começa no desenho

Existe uma tendência muito comum entre iniciantes: criar primeiro um personagem visualmente interessante e somente depois tentar descobrir quem ele é. O desenho vem acompanhado de uma roupa elaborada, um penteado característico, uma arma, um poder especial ou alguma outra característica visual. Tudo isso pode ser válido, mas ainda não constitui uma personagem narrativa.

Uma personagem começa a adquirir consistência quando conseguimos responder perguntas mais difíceis. O que ela deseja? O que impede que consiga aquilo que deseja? Do que ela tem medo? O que faria para alcançar seu objetivo? Como reage quando fracassa? Que relação mantém com as outras personagens? O que pode mudar nela ao longo da história?

Quando essas perguntas começam a ser respondidas, o desenho deixa de ser apenas aparência e passa a representar alguém que possui uma função dentro da narrativa.

É interessante observar Astérix por essa perspectiva. O personagem não é memorável apenas porque Albert Uderzo encontrou uma solução gráfica eficiente para representá-lo. Ele funciona porque existe uma personalidade, uma dinâmica com Obélix, uma relação com o universo gaulês e uma série de situações narrativas que permitem que novas histórias sejam construídas em torno dele.

Essa distinção é fundamental para o aluno de desenho que deseja avançar para a criação de quadrinhos. Desenhar personagens é uma habilidade; construir personagens é outra. As duas podem caminhar juntas, mas não são a mesma coisa.

A pesquisa antes da imaginação

Outro aspecto da trajetória de Goscinny que considero particularmente educativo é sua relação com a pesquisa. Em uma entrevista sobre Astérix, ele explicou que consultava diversas obras sobre a Gália, Roma e o período histórico utilizado como referência para as histórias. Depois, transformava esse conhecimento em ficção, combinando informação histórica, imaginário, lenda e fantasia.

Esse procedimento deveria ser mais valorizado por quem está começando a escrever. Existe uma ideia equivocada de que pesquisar significa limitar a criatividade. Na prática, muitas vezes ocorre justamente o contrário.

Quando você conhece melhor o assunto sobre o qual está escrevendo, passa a possuir mais elementos para fazer escolhas. Se vai criar uma história ambientada em determinado período histórico, por exemplo, pode descobrir costumes, conflitos sociais, objetos, profissões, formas de comunicação e características culturais que jamais surgiriam apenas pela imaginação espontânea.

A pesquisa não precisa aparecer explicitamente na obra. Aliás, muitas vezes ela não aparece. Seu papel é fornecer ao autor uma espécie de território de possibilidades.

Goscinny parece compreender isso muito bem. A pesquisa histórica de Astérix não transforma os álbuns em aulas de História. Ela fornece matéria-prima para que a narrativa possa brincar com aquilo que o leitor reconhece, aquilo que imagina conhecer e aquilo que o autor decide subverter.

Essa é uma lição que vale para qualquer área criativa: quanto mais repertório você possui, mais possibilidades tem para fazer escolhas conscientes.

O humor também precisa de construção

Há outra questão importante quando estudamos Goscinny: o humor.

À primeira vista, fazer uma história engraçada pode parecer uma tarefa relativamente simples. Basta colocar uma situação absurda, inserir uma fala inesperada e provocar uma reação engraçada. Na prática, porém, o humor narrativo é muito mais complexo.

Uma boa situação cômica geralmente depende de contexto. O leitor precisa compreender quem são os personagens, quais são suas características e o que normalmente esperaria deles. Somente então uma quebra de expectativa pode produzir um efeito realmente significativo.

Isso explica por que personagens bem construídos são tão importantes para a comédia. Se sabemos que determinada personagem é extremamente arrogante, medrosa, impulsiva ou teimosa, podemos criar situações em que justamente essa característica se torna responsável pelo conflito. A personalidade deixa de ser decoração e passa a funcionar como mecanismo narrativo.

É algo que podemos observar continuamente no universo criado por Goscinny. O humor não depende apenas de uma piada colocada dentro do quadro. Ele nasce da relação entre personagens, da situação, do contexto e da maneira como a história conduz o leitor até determinado acontecimento.

Para quem escreve, essa diferença é enorme. Uma piada pode provocar uma reação momentânea; uma situação construída a partir da personalidade de um personagem pode sustentar uma narrativa inteira.

Escrever para o desenho

Existe ainda uma questão que considero fundamental para quem pretende trabalhar profissionalmente com quadrinhos: o roteirista precisa compreender que está escrevendo para uma linguagem visual.

Isso parece óbvio, mas não é.

Um roteiro de quadrinhos não deveria simplesmente descrever tudo aquilo que o desenhista deverá representar. Se eu escrevo “João entra na sala. João olha para a mesa. João vê um copo sobre a mesa”, talvez eu esteja apenas transformando em palavras aquilo que três imagens poderiam comunicar de maneira muito mais eficiente.

O roteiro ganha força quando compreende a divisão de responsabilidades entre palavra e imagem.

Uma expressão facial pode substituir uma explicação. Um cenário pode revelar uma informação sobre o personagem. Um objeto colocado discretamente em segundo plano pode antecipar um acontecimento. Um enquadramento pode criar tensão sem que nenhuma personagem precise dizer uma palavra.

Quando começamos a pensar dessa maneira, percebemos que escrever quadrinhos não é escrever literatura e depois ilustrá-la. É construir uma narrativa que será percebida por meio da combinação entre diferentes elementos.

Essa compreensão muda completamente a maneira de trabalhar.

O valor da parceria

A carreira de Goscinny também me faz pensar bastante sobre colaboração. Ele trabalhou com diferentes desenhistas e autores, entre eles Albert Uderzo, Morris, Jean Tabary e Sempé.

Isso é especialmente interessante para quem está acostumado a imaginar o artista como alguém que precisa fazer absolutamente tudo sozinho.

Na produção profissional, muitas vezes acontece o contrário. Um bom projeto pode depender justamente da capacidade de diferentes profissionais compreenderem suas funções e contribuírem para uma mesma visão.

O roteirista organiza a narrativa. O desenhista encontra soluções visuais. O arte-finalista trabalha a definição gráfica. O colorista constrói atmosferas e relações cromáticas. O editor acompanha o projeto e ajuda a preservar sua coerência. Cada etapa possui sua importância.

Essa divisão não diminui o autor. Ela amplia aquilo que ele consegue produzir.

E talvez essa seja uma das coisas que mais gosto de observar na história dos quadrinhos: grandes obras frequentemente são resultado de encontros entre talentos diferentes.

O que um estudante pode aprender com Goscinny?

Se eu tivesse de resumir a principal lição que Goscinny oferece a alguém que está começando a escrever ou desenhar histórias, diria que é esta: não confunda a aparência de simplicidade com simplicidade de construção.

Astérix parece acessível porque é divertido, visualmente claro e extremamente comunicativo. Mas justamente por trás dessa aparente simplicidade existe uma construção cuidadosa de personagens, situações, referências, conflitos, diálogos e ritmo.

Isso vale para praticamente tudo o que fazemos na criação artística.

Uma ilustração que parece simples pode ter exigido anos de estudo. Uma página de quadrinhos aparentemente fácil pode esconder uma complexa organização de enquadramentos. Um diálogo engraçado pode ter sido reescrito inúmeras vezes. Uma personagem que parece espontânea pode ter sido construída a partir de dezenas de decisões.

O trabalho do artista não está apenas naquilo que aparece. Está também em tudo aquilo que precisou ser pensado para que aquilo pudesse aparecer.

René Goscinny morreu em 5 de novembro de 1977, aos 51 anos. Sua trajetória, porém, continua presente na cultura dos quadrinhos, tanto pelos personagens que ajudou a criar quanto pelas possibilidades narrativas que demonstrou ser possível explorar.

Para mim, esse é um dos motivos mais importantes para estudarmos artistas de outras gerações. Não se trata simplesmente de prestar homenagem. Trata-se de olhar para o trabalho de quem veio antes e tentar compreender quais decisões, conhecimentos e processos fizeram aquela obra funcionar.

Quando um aluno começa a fazer isso, seu olhar muda. Ele deixa de perguntar apenas “como desenhar desse jeito?” e começa a perguntar “por que isso funciona?”. E essa segunda pergunta, na minha experiência como professor, costuma ser o início de um amadurecimento artístico muito mais profundo.

Se você gosta de quadrinhos, talvez já tenha admirado Astérix, Obélix ou algum dos outros personagens associados à obra de Goscinny. Mas vale fazer uma experiência diferente: na próxima vez que abrir uma HQ, não observe apenas o desenho. Observe como a história foi construída. Veja onde o autor coloca a informação, como apresenta o conflito, quando introduz uma personagem, como cria uma expectativa e de que maneira conduz você até o próximo quadro.

Esse exercício aparentemente simples pode transformar sua maneira de ler quadrinhos — e, principalmente, sua maneira de criá-los.

Se você sente que tem histórias para contar, mas ainda precisa desenvolver melhor seus personagens, sua narrativa ou sua linguagem visual, talvez esteja na hora de estudar o processo de forma mais estruturada. No Instituto de Artes Darci Campioti, o objetivo não é apenas ensinar você a desenhar: é oferecer ferramentas para que você possa pensar, construir e desenvolver suas próprias histórias.

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