Há uma coisa que costumo perceber quando converso com alunos interessados em histórias em quadrinhos: muitos chegam à narrativa pela porta do desenho. Isso é absolutamente natural. Afinal, a primeira relação que temos com uma HQ costuma ser visual. Vemos um personagem, uma página, uma capa, uma expressão, uma cena de ação e imediatamente queremos reproduzir aquilo. O problema começa quando o desenhista percebe que consegue representar muito bem uma personagem, mas ainda não sabe exatamente o que fazer com ela dentro de uma história.
É nesse momento que estudar
autores como René Goscinny se torna particularmente interessante. Goscinny
nasceu em Paris em 14 de agosto de 1926 e construiu uma carreira que atravessou
diferentes países, linguagens e parceiros criativos. Seu nome ficou definitivamente
associado a Astérix, criado em parceria com Albert Uderzo, mas também
está ligado a Lucky Luke, Iznogoud, Le Petit Nicolas e
diversos outros trabalhos.
O que me interessa em Goscinny,
entretanto, não é apenas a quantidade de personagens famosos que passaram por
sua escrita. O que considero particularmente importante para quem está
aprendendo é observar como ele pensava a história antes que ela se
transformasse em uma sucessão de desenhos.
O personagem não começa no
desenho
Existe uma tendência muito comum
entre iniciantes: criar primeiro um personagem visualmente interessante e
somente depois tentar descobrir quem ele é. O desenho vem acompanhado de uma
roupa elaborada, um penteado característico, uma arma, um poder especial ou
alguma outra característica visual. Tudo isso pode ser válido, mas ainda não
constitui uma personagem narrativa.
Uma personagem começa a adquirir
consistência quando conseguimos responder perguntas mais difíceis. O que ela
deseja? O que impede que consiga aquilo que deseja? Do que ela tem medo? O que
faria para alcançar seu objetivo? Como reage quando fracassa? Que relação
mantém com as outras personagens? O que pode mudar nela ao longo da história?
Quando essas perguntas começam a
ser respondidas, o desenho deixa de ser apenas aparência e passa a representar
alguém que possui uma função dentro da narrativa.
É interessante observar Astérix
por essa perspectiva. O personagem não é memorável apenas porque Albert Uderzo
encontrou uma solução gráfica eficiente para representá-lo. Ele funciona porque
existe uma personalidade, uma dinâmica com Obélix, uma relação com o universo
gaulês e uma série de situações narrativas que permitem que novas histórias
sejam construídas em torno dele.
Essa distinção é fundamental para
o aluno de desenho que deseja avançar para a criação de quadrinhos. Desenhar
personagens é uma habilidade; construir personagens é outra. As duas podem
caminhar juntas, mas não são a mesma coisa.
A pesquisa antes da imaginação
Outro aspecto da trajetória de
Goscinny que considero particularmente educativo é sua relação com a pesquisa.
Em uma entrevista sobre Astérix, ele explicou que consultava diversas
obras sobre a Gália, Roma e o período histórico utilizado como referência para
as histórias. Depois, transformava esse conhecimento em ficção, combinando
informação histórica, imaginário, lenda e fantasia.
Esse procedimento deveria ser
mais valorizado por quem está começando a escrever. Existe uma ideia equivocada
de que pesquisar significa limitar a criatividade. Na prática, muitas vezes
ocorre justamente o contrário.
Quando você conhece melhor o
assunto sobre o qual está escrevendo, passa a possuir mais elementos para fazer
escolhas. Se vai criar uma história ambientada em determinado período
histórico, por exemplo, pode descobrir costumes, conflitos sociais, objetos,
profissões, formas de comunicação e características culturais que jamais
surgiriam apenas pela imaginação espontânea.
A pesquisa não precisa aparecer
explicitamente na obra. Aliás, muitas vezes ela não aparece. Seu papel é
fornecer ao autor uma espécie de território de possibilidades.
Goscinny parece compreender isso
muito bem. A pesquisa histórica de Astérix não transforma os álbuns em
aulas de História. Ela fornece matéria-prima para que a narrativa possa brincar
com aquilo que o leitor reconhece, aquilo que imagina conhecer e aquilo que o
autor decide subverter.
Essa é uma lição que vale para
qualquer área criativa: quanto mais repertório você possui, mais
possibilidades tem para fazer escolhas conscientes.
O humor também precisa de
construção
Há outra questão importante
quando estudamos Goscinny: o humor.
À primeira vista, fazer uma
história engraçada pode parecer uma tarefa relativamente simples. Basta colocar
uma situação absurda, inserir uma fala inesperada e provocar uma reação
engraçada. Na prática, porém, o humor narrativo é muito mais complexo.
Uma boa situação cômica
geralmente depende de contexto. O leitor precisa compreender quem são os
personagens, quais são suas características e o que normalmente esperaria
deles. Somente então uma quebra de expectativa pode produzir um efeito
realmente significativo.
Isso explica por que personagens
bem construídos são tão importantes para a comédia. Se sabemos que determinada
personagem é extremamente arrogante, medrosa, impulsiva ou teimosa, podemos
criar situações em que justamente essa característica se torna responsável pelo
conflito. A personalidade deixa de ser decoração e passa a funcionar como
mecanismo narrativo.
É algo que podemos observar
continuamente no universo criado por Goscinny. O humor não depende apenas de
uma piada colocada dentro do quadro. Ele nasce da relação entre personagens, da
situação, do contexto e da maneira como a história conduz o leitor até
determinado acontecimento.
Para quem escreve, essa diferença
é enorme. Uma piada pode provocar uma reação momentânea; uma situação
construída a partir da personalidade de um personagem pode sustentar uma
narrativa inteira.
Escrever para o desenho
Existe ainda uma questão que
considero fundamental para quem pretende trabalhar profissionalmente com
quadrinhos: o roteirista precisa compreender que está escrevendo para uma
linguagem visual.
Isso parece óbvio, mas não é.
Um roteiro de quadrinhos não
deveria simplesmente descrever tudo aquilo que o desenhista deverá representar.
Se eu escrevo “João entra na sala. João olha para a mesa. João vê um copo sobre
a mesa”, talvez eu esteja apenas transformando em palavras aquilo que três
imagens poderiam comunicar de maneira muito mais eficiente.
O roteiro ganha força quando
compreende a divisão de responsabilidades entre palavra e imagem.
Uma expressão facial pode
substituir uma explicação. Um cenário pode revelar uma informação sobre o
personagem. Um objeto colocado discretamente em segundo plano pode antecipar um
acontecimento. Um enquadramento pode criar tensão sem que nenhuma personagem
precise dizer uma palavra.
Quando começamos a pensar dessa
maneira, percebemos que escrever quadrinhos não é escrever literatura e depois
ilustrá-la. É construir uma narrativa que será percebida por meio da combinação
entre diferentes elementos.
Essa compreensão muda
completamente a maneira de trabalhar.
O valor da parceria
A carreira de Goscinny também me
faz pensar bastante sobre colaboração. Ele trabalhou com diferentes desenhistas
e autores, entre eles Albert Uderzo, Morris, Jean Tabary e Sempé.
Isso é especialmente interessante
para quem está acostumado a imaginar o artista como alguém que precisa fazer
absolutamente tudo sozinho.
Na produção profissional, muitas
vezes acontece o contrário. Um bom projeto pode depender justamente da
capacidade de diferentes profissionais compreenderem suas funções e
contribuírem para uma mesma visão.
O roteirista organiza a
narrativa. O desenhista encontra soluções visuais. O arte-finalista trabalha a
definição gráfica. O colorista constrói atmosferas e relações cromáticas. O
editor acompanha o projeto e ajuda a preservar sua coerência. Cada etapa possui
sua importância.
Essa divisão não diminui o autor.
Ela amplia aquilo que ele consegue produzir.
E talvez essa seja uma das coisas
que mais gosto de observar na história dos quadrinhos: grandes obras
frequentemente são resultado de encontros entre talentos diferentes.
O que um estudante pode
aprender com Goscinny?
Se eu tivesse de resumir a
principal lição que Goscinny oferece a alguém que está começando a escrever ou
desenhar histórias, diria que é esta: não confunda a aparência de
simplicidade com simplicidade de construção.
Astérix parece acessível
porque é divertido, visualmente claro e extremamente comunicativo. Mas
justamente por trás dessa aparente simplicidade existe uma construção cuidadosa
de personagens, situações, referências, conflitos, diálogos e ritmo.
Isso vale para praticamente tudo
o que fazemos na criação artística.
Uma ilustração que parece simples
pode ter exigido anos de estudo. Uma página de quadrinhos aparentemente fácil
pode esconder uma complexa organização de enquadramentos. Um diálogo engraçado
pode ter sido reescrito inúmeras vezes. Uma personagem que parece espontânea
pode ter sido construída a partir de dezenas de decisões.
O trabalho do artista não está
apenas naquilo que aparece. Está também em tudo aquilo que precisou ser pensado
para que aquilo pudesse aparecer.
René Goscinny morreu em 5 de
novembro de 1977, aos 51 anos. Sua trajetória, porém, continua presente na
cultura dos quadrinhos, tanto pelos personagens que ajudou a criar quanto pelas
possibilidades narrativas que demonstrou ser possível explorar.
Para mim, esse é um dos motivos
mais importantes para estudarmos artistas de outras gerações. Não se trata
simplesmente de prestar homenagem. Trata-se de olhar para o trabalho de quem
veio antes e tentar compreender quais decisões, conhecimentos e processos
fizeram aquela obra funcionar.
Quando um aluno começa a fazer
isso, seu olhar muda. Ele deixa de perguntar apenas “como desenhar desse
jeito?” e começa a perguntar “por que isso funciona?”. E essa segunda pergunta,
na minha experiência como professor, costuma ser o início de um amadurecimento
artístico muito mais profundo.
Se você gosta de quadrinhos,
talvez já tenha admirado Astérix, Obélix ou algum dos outros personagens
associados à obra de Goscinny. Mas vale fazer uma experiência diferente: na
próxima vez que abrir uma HQ, não observe apenas o desenho. Observe como a
história foi construída. Veja onde o autor coloca a informação, como
apresenta o conflito, quando introduz uma personagem, como cria uma expectativa
e de que maneira conduz você até o próximo quadro.
Esse exercício aparentemente
simples pode transformar sua maneira de ler quadrinhos — e, principalmente, sua
maneira de criá-los.
Se você sente que tem histórias
para contar, mas ainda precisa desenvolver melhor seus personagens, sua
narrativa ou sua linguagem visual, talvez esteja na hora de estudar o processo
de forma mais estruturada. No Instituto de Artes Darci Campioti, o objetivo não
é apenas ensinar você a desenhar: é oferecer ferramentas para que você possa pensar,
construir e desenvolver suas próprias histórias.

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