sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Quando a cor é linguagem: arte, comunicação e resistência

Essa imagem parece simples à primeira vista.

Um personagem pintando um quadro conhecido. Um gesto quase infantil.
Mas, para mim, ela carrega anos de silêncio, resistência e insistência.

O Lorenzo, mascote que criei para o Instituto de Artes Darci Campioti, está pintando uma releitura de A Noite Estrelada, de Van Gogh. Não como cópia. Como diálogo.

E talvez seja exatamente isso que a arte sempre foi para mim: uma tentativa honesta de conversar, mesmo quando ninguém parece disposto a ouvir.


A cor como forma de falar

O Lorenzo é um camaleão.
E isso nunca foi apenas uma escolha estética.

Durante muito tempo, acreditou-se que o camaleão mudava de cor apenas para se camuflar. Estudos mais recentes mostram algo muito mais interessante: a mudança de cor está ligada à comunicação, ao estado emocional, à interação com o ambiente e com o outro.

A cor não esconde.
A cor revela.

Na arte, sempre senti algo parecido. Quando não conseguimos dizer em palavras, dizemos em formas, traços, cores, ritmo. A arte fala onde a linguagem convencional falha.

Talvez por isso eu tenha criado um mascote que se comunica visualmente.
Talvez por isso eu tenha escolhido ensinar arte.


Van Gogh não pintava para agradar

Van Gogh não é apenas um gênio incompreendido — ele é um símbolo de algo muito mais profundo: o artista que continuou mesmo sem validação.

Ele pintava porque precisava.
Porque aquilo era sua forma de existir no mundo.

A Noite Estrelada não nasceu para ser um ícone pop. Nasceu de um olhar inquieto, de uma mente intensa, de alguém que via o mundo de forma diferente — e pagou um preço alto por isso.

Colocar o Lorenzo diante dessa obra não é homenagem gratuita. É reconhecimento. É dizer, silenciosamente:

“Expressar-se não depende de aceitação imediata.”


2002: começar quando ninguém acredita

Quando fundei a escola, em 2002, ouvi muitas objeções.
Algumas educadas. Outras nem tanto.

Disseram que não daria certo.
Que o método era diferente demais.
Que o foco em fundamento, processo e linguagem visual era “exigente”.

Talvez fosse mesmo.
Mas eu nunca acreditei em atalhos na arte.

Ensinar arte, para mim, sempre foi ensinar a ver, a pensar e a se expressar — não apenas a repetir fórmulas. E isso, muitas vezes, incomoda.

Van Gogh também incomodava.
Não porque errava, mas porque não se encaixava.


O erro mais comum: confundir técnica com expressão

Vejo isso com frequência em alunos iniciantes (e até avançados):
a crença de que técnica é o objetivo final.

Não é.

Técnica é ferramenta.
Expressão é o sentido.

Quando o aluno entende isso, algo muda. O traço amadurece. A insegurança diminui. A comparação perde força. Ele começa a construir uma linguagem própria — mesmo que ainda imperfeita.

E isso é libertador.


Ensinar arte é traduzir o invisível

Talvez o que eu mais tenha aprendido nesses anos todos é que ensinar arte não é impor visão. É traduzir caminhos.

Cada aluno se comunica de um jeito.
Cada artista enxerga o mundo por uma lente própria.

O papel do professor não é apagar isso, mas ajudar a organizar, fortalecer e dar clareza a essa voz visual.

Assim como o Lorenzo não tenta ser Van Gogh, mas conversa com ele através da pintura.


Por que essa imagem importa

Essa imagem importa porque ela diz, sem texto:

  • que a arte é comunicação
  • que a expressão vem antes da aprovação
  • que ensinar é acolher diferenças
  • que persistir também é um ato criativo

Ela é simples no traço, mas profunda na intenção.
Assim como muitas escolhas que fiz ao longo do caminho.


Um convite sincero

Se você também sente que a arte é mais do que técnica,
se acredita que desenhar, pintar e criar é uma forma legítima de pensar o mundo,
então talvez nossas visões conversem.

No meu trabalho — como artista, professor e fundador do IADC — continuo fazendo o que sempre fiz: traduzindo sentimentos em linguagem visual e ajudando outros a fazerem o mesmo.

Às vezes, mudar de cor é a única forma de ser entendido.

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