Quando olho para uma página de Prince
Valiant, uma das primeiras coisas que chama atenção é o acabamento. Há uma
quantidade impressionante de informação visual, personagens cuidadosamente
construídos, ambientes detalhados, figurinos, arquitetura, paisagens e cenas de
ação. É natural que um estudante de desenho olhe para aquilo e pense
imediatamente: “Eu gostaria de desenhar assim”. Mas existe uma pergunta muito
mais importante escondida atrás dessa admiração: o que foi necessário
aprender para que uma imagem como essa pudesse existir?
Hal Foster nasceu em Halifax, no
Canadá, em 16 de agosto de 1892. Trabalhou inicialmente com ilustração e ganhou
reconhecimento ao adaptar Tarzan para os quadrinhos. Em 1937, criou Prince
Valiant, obra que se tornaria sua principal realização e uma das
referências mais importantes da história das tiras de aventura.
O que me interessa
particularmente em sua trajetória é perceber que Foster não tratava o desenho
como uma sucessão de detalhes. Havia uma estrutura por trás deles. E essa
observação é muito importante para quem está aprendendo.
Tenho visto muitas vezes o aluno
chegar à aula querendo aprender a fazer determinada coisa muito específica.
Quer desenhar uma mão perfeita, um rosto realista, um personagem musculoso, uma
armadura detalhada ou uma cena cheia de elementos. Não há nada de errado nesse
desejo. O problema começa quando o estudante acredita que a habilidade final
pode ser aprendida sem passar pelas estruturas que a sustentam.
Uma mão não começa nos cinco
dedos. Um rosto não começa nos olhos. Um personagem não começa na roupa. Uma
cena não começa nos detalhes do cenário.
Essa talvez seja uma das
primeiras coisas que o estudo de Foster pode nos ensinar.
Quando observamos seus
personagens, percebemos que existe uma preocupação muito grande com anatomia,
proporção, equilíbrio e movimento. Quando observamos os ambientes, percebemos
domínio espacial e perspectiva. Quando olhamos para a composição, encontramos
uma organização cuidadosa das figuras e dos espaços. Os detalhes aparecem, mas
eles não estão ali sozinhos.
Existe estrutura antes do
acabamento.
Isso parece óbvio quando colocado
dessa maneira, mas é uma das coisas que mais precisamos aprender no desenho. O
iniciante costuma enxergar o resultado; o artista precisa aprender a enxergar o
processo.
É por isso que, quando proponho
exercícios aos alunos, muitas vezes insisto em coisas que parecem simples
demais. Sólidos geométricos, linhas de construção, observação, proporção,
perspectiva, luz e sombra. Para quem deseja imediatamente produzir uma grande
ilustração, esses exercícios podem parecer distantes do objetivo. Na realidade,
eles são justamente o caminho para chegar lá.
Imagine uma personagem medieval
de Prince Valiant. Antes de existir a armadura detalhada, existe um
corpo. Antes do corpo, existe uma estrutura. Antes da estrutura, existe uma
compreensão do movimento e do equilíbrio. A armadura precisa acompanhar essa
construção. A capa precisa responder ao movimento. A espada precisa obedecer à
perspectiva. O cavalo precisa possuir uma estrutura anatômica convincente.
O detalhe é a última camada de
uma construção muito maior.
É nesse ponto que Hal Foster se
torna um excelente professor, mesmo sem estar diante de nós em uma sala de
aula. Seu trabalho nos obriga a perguntar o que existe por trás da imagem.
Outra característica que
considero fascinante é sua atenção ao contexto histórico. Prince Valiant
não apresenta simplesmente personagens usando roupas antigas. O universo visual
procura construir uma época. Arquitetura, armas, vestimentas e ambientes
colaboram para essa sensação de autenticidade. A pesquisa, portanto, participa
diretamente do processo criativo.
Isso também é uma lição
importante para ilustradores.
Muitas vezes pensamos em pesquisa
como algo que vem antes da criação e que desaparece quando começamos a
desenhar. Na verdade, a pesquisa pode permanecer dentro da própria imagem.
Quanto melhor compreendemos aquilo que estamos representando, maiores são as
possibilidades de fazer escolhas visuais convincentes.
Se preciso desenhar uma armadura
medieval, por exemplo, não basta procurar uma fotografia bonita na internet.
Preciso compreender como aquela armadura funciona, como se articula com o
corpo, onde existem placas rígidas, onde existe mobilidade, como a luz incide
sobre o metal e como aquele objeto se relaciona com o personagem.
Esse conhecimento modifica o
desenho.
E isso vale para praticamente
tudo.
Um artista que desenha uma cidade
precisa compreender espaço. Quem desenha pessoas precisa compreender anatomia.
Quem trabalha com personagens precisa compreender expressão e linguagem
corporal. Quem ilustra ambientes precisa compreender perspectiva, luz e
composição.
O desenho começa no papel, mas
seu conhecimento não nasce necessariamente nele.
Outro aspecto do trabalho de
Foster que considero especialmente interessante é a maneira como ele
relacionava texto e imagem. Em Prince Valiant, a narração e os diálogos
frequentemente aparecem integrados às próprias imagens, em vez de depender dos
balões tradicionais. Essa escolha fazia com que a página funcionasse como uma
composição única, na qual palavra e imagem participavam conjuntamente da
narrativa.
Isso nos leva diretamente ao
ensino de histórias em quadrinhos.
Quando um aluno começa a produzir
uma HQ, muitas vezes pensa primeiro no desenho de cada quadro. É compreensível.
Afinal, ele está ali porque gosta de desenhar. Mas uma história em quadrinhos
não é uma coleção de desenhos bonitos colocados lado a lado. Existe ritmo,
sequência, enquadramento, continuidade, passagem de tempo, relação entre texto
e imagem e controle da atenção do leitor.
Uma imagem precisa conversar com
a próxima.
Uma página precisa produzir uma
experiência.
E o desenho precisa participar
dessa experiência.
Essa percepção muda completamente
o trabalho do quadrinista.
Foster também nos oferece uma
reflexão interessante sobre o próprio conceito de estilo. Seu desenho tornou-se
imediatamente reconhecível, mas não acredito que essa identidade tenha surgido
porque um dia ele decidiu “criar um estilo”. O mais provável é que tenha
surgido como consequência de anos de observação, prática, referências, decisões
e refinamento.
Isso é algo que costumo dizer aos
alunos: não tenha tanta pressa para encontrar seu estilo.
O estudante que procura
desesperadamente um estilo acaba muitas vezes colecionando características de
outros artistas. Hoje desenha como um, amanhã como outro, depois mistura três
referências e acredita que encontrou uma identidade. Mas ainda falta uma coisa:
experiência suficiente para saber quais escolhas realmente fazem sentido para
ele.
Estilo não deveria ser uma
fantasia colocada sobre o desenho.
Deveria ser consequência do
desenho que você aprendeu a fazer.
Quanto mais repertório você
adquire, mais possibilidades possui. Quanto mais possibilidades possui, mais
pode escolher. E quanto mais conscientemente escolhe, mais sua personalidade
começa a aparecer naquilo que produz.
É por isso que gosto tanto de
estudar artistas como Hal Foster com os alunos. Não para dizer “desenhem como
ele”, mas justamente para mostrar que existe muito mais a aprender quando
deixamos de olhar apenas para a superfície.
Podemos estudar sua anatomia.
Podemos estudar sua perspectiva.
Podemos estudar sua composição.
Podemos observar sua pesquisa
histórica.
Podemos analisar a relação entre
texto e imagem.
Podemos compreender como uma
página organiza a leitura.
E, depois de tudo isso, podemos
voltar ao nosso próprio desenho.
Essa é a parte que considero mais
importante.
A referência precisa terminar
em nós.
Se estudamos Foster apenas para
reproduzir Foster, ficamos presos à cópia. Se estudamos Foster para compreender
como um grande artista pensa visualmente, a referência se transforma em
conhecimento. E conhecimento pode ser aplicado em qualquer linguagem.
É esse tipo de aprendizado que
procuro desenvolver no IADC. Não acredito em uma formação artística baseada
apenas em repetir modelos. Acredito na importância de ensinar fundamentos,
oferecer prática, analisar resultados e permitir que cada aluno, gradualmente,
encontre suas próprias soluções.
Quando um estudante consegue
olhar para uma obra de Hal Foster e enxergar não apenas “um desenho muito
detalhado”, mas perceber anatomia, perspectiva, composição, pesquisa, narrativa
e intenção, alguma coisa importante já aconteceu.
Ele começou a ver como artista.
E talvez essa seja a maior
contribuição que um grande mestre pode oferecer a quem ainda está aprendendo.
Não nos ensinar exatamente como
desenhar.
Mas nos ensinar a olhar.

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