Penso nisso quando observo a
trajetória de Todd McFarlane. Para muitos estudantes de quadrinhos, seu nome
está imediatamente associado a Spawn, às figuras extremamente dinâmicas,
à anatomia exagerada, às grandes áreas de preto e à quantidade impressionante
de detalhes presentes em suas imagens. É muito fácil olhar para esse conjunto
de características e concluir que o “estilo McFarlane” está ali, pronto para
ser copiado. Entretanto, essa é justamente a leitura que considero menos
interessante para quem está aprendendo.
McFarlane tornou-se conhecido
inicialmente por seu trabalho em Spider-Man, na Marvel, onde sua maneira
de desenhar chamou enorme atenção. Também participou da criação de Venom. Em
1992, participou da fundação da Image Comics e lançou Spawn, assumindo
simultaneamente funções de escritor e artista na primeira edição. A publicação
alcançou 1,7 milhão de exemplares vendidos, um resultado extraordinário para
uma revista independente, e ajudou a estabelecer a importância comercial e
cultural da nova editora.
Mas o que me interessa, como
professor, não é apenas o sucesso comercial. É aquilo que existe antes dele: a
construção de uma linguagem.
Quando um aluno olha para um
desenho de McFarlane, normalmente percebe primeiro o acabamento. Observa os
músculos, as linhas, os cabelos, as capas, as correntes, as sombras e todos
aqueles elementos que fazem a imagem parecer extremamente complexa. O estudante
pode então tentar reproduzir essa aparência. Só que existe um problema:
complexidade visual não significa necessariamente domínio visual.
Uma figura aparentemente
complicada pode ter começado com uma estrutura bastante simples. O artista
precisa compreender onde está o eixo do corpo, como o peso está distribuído,
qual é a direção da ação, como o tronco se relaciona com a pelve, de que maneira
os membros se articulam e como a perspectiva modifica aquilo que estamos vendo.
Depois disso entram músculos, roupas, cabelos, acessórios, texturas e detalhes.
A complexidade é construída sobre uma estrutura.
Essa é uma das razões pelas quais
insisto tanto, nas minhas aulas, na importância dos fundamentos. Às vezes o
aluno chega querendo desenhar um personagem sofisticado, mas ainda encontra
dificuldades para construir uma caixa em perspectiva. Quer desenhar uma figura
humana em movimento, mas não consegue estabelecer corretamente a proporção
entre tronco e membros. Quer fazer uma ilustração com iluminação dramática, mas
ainda não compreendeu como a luz se comporta sobre um volume simples.
Não considero isso um problema. O
problema seria tentar pular essas etapas.
Aprender desenho é semelhante à
construção de uma casa. Ninguém olha para uma residência pronta e imagina que o
acabamento decorativo foi colocado antes da estrutura. Existe uma ordem de
construção. No desenho acontece algo semelhante. Primeiro precisamos
compreender aquilo que sustenta a imagem; depois podemos começar a explorar as
possibilidades expressivas dessa estrutura.
O interessante em McFarlane é
justamente perceber como os fundamentos podem ser utilizados para produzir
exagero. Seu desenho não busca necessariamente uma representação anatômica
naturalista. Ele utiliza deformações, proporções e poses para aumentar a sensação
de força e movimento. Isso só funciona porque existe uma compreensão suficiente
da figura para que o exagero permaneça convincente.
É uma diferença importante. Não
existe oposição entre técnica e expressão. A técnica oferece ao artista
condições para expressar aquilo que pretende.
Também gosto de observar a
maneira como McFarlane trabalha o preto. Em muitas de suas imagens, as áreas
escuras possuem presença quase arquitetônica. Elas organizam a página, criam
contraste, sugerem profundidade e ajudam a conduzir o olhar. Um estudante pode
olhar para aquilo simplesmente como “um desenho cheio de sombras”. Um olhar
mais atento percebe que existe uma estratégia de composição.
Esse é um exercício que procuro
estimular nos alunos: quando encontrarem uma obra que admiram, não perguntem
apenas “como ele fez?”. Perguntem também “por que ele fez dessa maneira?”. Por
que essa figura está inclinada? Por que essa área recebeu mais preto? Por que
determinado personagem ocupa tanto espaço na composição? Por que uma mão foi
colocada naquela posição? Por que o rosto está naquele ângulo?
Essas perguntas mudam
completamente a relação com a referência.
A partir desse ponto, estudar um
artista deixa de significar copiar sua aparência e passa a significar
investigar suas decisões. É uma mudança pequena na formulação da pergunta, mas
enorme no resultado do aprendizado.
Outra característica que
considero especialmente importante na trajetória de McFarlane é a compreensão
de que desenho e narrativa não são campos separados. Em quadrinhos, uma figura
não precisa apenas ser bonita. Ela precisa participar de uma história. Uma pose
deve comunicar ação. Uma expressão precisa contribuir para a personalidade. Uma
composição precisa orientar a leitura. Uma página precisa controlar ritmo e
informação.
Ao criar Spawn, McFarlane
também precisou enfrentar uma questão que todo autor de personagem conhece:
chamar a atenção do público é apenas o primeiro passo. A própria reflexão do
artista sobre a criação da série mostra sua preocupação em fazer com que o
leitor inicialmente atraído pelo desenho permanecesse interessado pelo
personagem e pelo universo construído ao redor dele.
Isso nos leva a outro ponto que
muitas vezes esquecemos quando falamos de desenho: uma boa ilustração não
termina necessariamente na imagem. Ela pode ser uma porta de entrada para
uma história, uma personalidade, um universo ou uma ideia. O ilustrador que
compreende isso começa a perceber que suas decisões gráficas possuem
consequências narrativas.
É por isso que gosto de aproximar
o estudo do desenho do estudo da narrativa. Um personagem não nasce apenas de
uma anatomia bem desenhada. Ele nasce também de intenções, conflitos,
características, escolhas e contexto. Quando desenho e narrativa se encontram,
a figura deixa de ser apenas uma representação visual e passa a carregar
informação.
A trajetória de McFarlane também
apresenta uma dimensão profissional que considero relevante para quem pretende
viver de sua produção artística. A participação na fundação da Image Comics
colocou em evidência uma discussão importante sobre autoria e controle
criativo. O projeto editorial nasceu justamente da iniciativa de artistas
interessados em possuir maior autonomia sobre seus personagens e propriedades
criativas.
Isso nos lembra que a formação de
um artista não deveria limitar-se à capacidade de executar desenhos. É
importante compreender também o valor das próprias ideias. Um profissional
precisa aprender a desenvolver personagens, construir universos, contar histórias
e reconhecer aquilo que pode se transformar em uma produção autoral
consistente.
Talvez seja essa a principal
lição que eu tiraria da trajetória de Todd McFarlane para um aluno que esteja
começando hoje: não tente encontrar seu estilo com pressa.
Desenhe bastante. Estude
anatomia. Observe pessoas. Construa objetos. Pratique perspectiva. Estude luz e
sombra. Análise artistas diferentes, inclusive aqueles que parecem não ter
nenhuma relação entre si. Faça exercícios que você considera difíceis. Erre.
Volte ao desenho. Compare trabalhos antigos com trabalhos recentes. E,
principalmente, procure entender por que determinada imagem funciona.
Em algum momento, suas escolhas
começarão a se repetir naturalmente. Você perceberá que prefere determinados
enquadramentos, determinadas soluções de linha, certas relações de luz,
determinadas proporções ou maneiras específicas de representar personagens. Aos
poucos, aquilo que antes era apenas influência começará a se transformar em uma
linguagem própria.
É nesse momento que começa a
aparecer o estilo.
Não como uma máscara colocada
sobre o desenho, mas como consequência de tudo aquilo que você estudou,
observou, experimentou e decidiu preservar.
Todd McFarlane é uma excelente
referência justamente porque sua trajetória permite observar esse processo em
várias dimensões: o desenhista que desenvolveu uma linguagem reconhecível, o
roteirista que compreendeu a importância da construção narrativa, o criador que
desenvolveu uma propriedade autoral e o profissional que participou da
construção de uma empresa baseada na autonomia criativa.
Para quem ensina desenho,
referências assim são valiosas porque permitem mostrar ao aluno que a arte não
se constrói apenas olhando para a superfície das imagens. É preciso investigar
o que existe por trás delas.
No final, talvez a pergunta mais
produtiva não seja “como desenhar como Todd McFarlane?”. A pergunta deveria
ser: “o que posso aprender com Todd McFarlane para desenvolver aquilo que
somente eu posso desenhar?”
Essa é uma pergunta que vale a
pena levar para a mesa de desenho.

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